Acompanhar o progresso com medidas melhora a terapia? O que a pesquisa sugere
Numa terapia longa, é fácil confundir movimento com direção. O paciente parece melhor, ou é impressão de um dia bom? Aquele quadro que não anda está estagnado mesmo, ou piorando sem que ninguém tenha notado? A ideia de acompanhar o progresso com medidas regulares — e devolver esse retrato para orientar o trabalho — nasce exatamente dessa dúvida honesta do dia a dia clínico.
O que o estudo investigou
Essa prática aparece na literatura com nomes como monitoramento rotineiro de desfechos (ROM), feedback de progresso ou cuidado baseado em medidas. A ideia é simples: coletar, de forma sistemática, como o paciente está (em geral por questionários breves respondidos por ele) e usar essa informação para acompanhar a evolução e ajustar o tratamento.
Uma meta-análise multinível de de Jong e colaboradores, publicada em 2021 na Clinical Psychology Review, reuniu 58 estudos, somando 110 tamanhos de efeito e cerca de 21.700 pacientes, para estimar o impacto de devolver esse feedback ao terapeuta durante o tratamento. Uma revisão mais recente, de McAleavey e colaboradores (2024), discute o estado atual do campo e para onde ele caminha.
O que a evidência mostra
Segundo a meta-análise de de Jong e colaboradores (2021), o feedback de progresso teve um efeito pequeno, porém estatisticamente significativo, na redução de sintomas em comparação aos grupos de controle, e um efeito favorável sobre o abandono do tratamento. Os autores também descrevem moderadores importantes: o instrumento usado, a frequência de uso e a intensidade do tratamento influenciam o tamanho do benefício — ou seja, não é qualquer implementação que rende o mesmo resultado.
Um ponto que costuma ser destacado nessa literatura é o valor de detectar precocemente quem está piorando ou não respondendo. A revisão de McAleavey e colaboradores (2024) situa o feedback como uma forma de trazer ao terapeuta uma informação que, de outro modo, poderia passar despercebida — abrindo espaço para ajustes de rota antes que o caso esfrie.
A cautela é a mesma de sempre: "pequeno, porém consistente" não é "transformador". A medida não substitui o julgamento clínico nem a escuta; ela é um instrumento de apoio à decisão, mais útil justamente nos casos que não vão bem. Números viram cuidado quando lidos com sensibilidade, não quando tratados como veredito.
Na prática
O convite prático é usar medidas como aliadas da conversa, e não como burocracia. Um instrumento breve, aplicado com regularidade, pode abrir a sessão ("os números sugerem uma semana mais pesada; como foi para você?") e ajudar a perceber cedo quem está travando.
Na psicologia, o Florescer Hub permite registrar avaliações e acompanhar a evolução do paciente ao longo do tempo, com o histórico guardado no prontuário cifrado, datado e sem exclusão de registros. Assim, o retrato do progresso fica ao lado das evoluções de cada sessão, num só lugar e sob os mesmos cuidados de sigilo. A plataforma organiza a informação; a interpretação clínica, essa continua sendo sua.
Fontes
- de Jong K, Conijn JM, Gallagher RAV, Reshetnikova AS, Heij M, Lutz MC. Using progress feedback to improve outcomes and reduce drop-out, treatment duration, and deterioration: A multilevel meta-analysis. Clinical Psychology Review, 2021. link
- McAleavey AA, de Jong K, Nissen-Lie HA, Boswell JF, Moltu C, Lutz W. Routine Outcome Monitoring and Clinical Feedback in Psychotherapy: Recent Advances and Future Directions. Administration and Policy in Mental Health, 2024. link
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